Histórico do Mar
Mergulho
É importante lembrar que o mergulho de caráter comercial é um trabalho que se desenrola em condições hiperbáricas, isto é, aquelas em que os indivíduos se encontram expostos a pressões ambientes superiores à pressão atmosférica normal. Esta atividade só firmou-se como um campo de trabalho no Brasil nos primeiros anos da década de 1.960 com a necessidade de ampliação de portos, de construção de cais, barragens, pontes, etc...

O mergulho comercial subdivide-se em dois grupos: o mergulho raso e o mergulho profundo. O mergulho raso é todo aquele que se realiza até a faixa dos 50 (cinquenta) metros de profundidade, normalmente utilizando-se o ar comprimido com fonte de mistura respiratória, fornecida pelo equipamento autônomo (o tradicional aqualung) ou dependente, quando ligado à superfície. Quando as atividades realizadas ultrapassam a barreira dos 50 metros, diz-se, então, que o mergulho é do tipo profundo (ou simplesmente fundo), caso em que as operações exigem não apenas a utilização de misturas especiais como o hélio (hélio e oxigênio), mas todo um suporte / monitoramento dado pela superfície.

Até o início da década de setenta, quase toda a atividade de mergulho profissional no Brasil se restringia a trabalhos eventuais em portos ou em hidrelétricas, onde muito raramente as profundidades ultrapassavam os 30 metros. A mão-de-obra era suprida por um número extremamente reduzido de profissionais, que encarnavam o espírito da juventude amante da praia e de esportes aquáticos (surf, caça submarina esportiva, etc...) sob influência dos fenômenos dos movimentos contraculturais emergentes dos anos sessenta. O mergulho profissional se colocou como uma alternativa de profissionalização que sinalizava para vivências "venturosas" e lúdicas, valorizadas pelo seu universo simbólico construído na sua relação com o mar, nas intensidades que aí floresciam.
 
     
 
A partir das obras de construção da Ponte Rio-Niterói, quando são realizados, além dos mergulhos rasos convencionais, os primeiros mergulhos profundos no pais, em profundidades de até 90 metros, com a utilização de misturas respiratórias artificiais (hélio-oxigênio), numa demanda constante, afim de realizar os necessários trabalhos de inspeção interna das fundações dos pilares e coletas de amostras do material rochoso, etc..., sendo a empresa Ecex, responsável pela obra, foi então, a primeira empresa contratante desse tipo de serviço no Pais.

Nesta mesma época, a Petrobrás iniciava sua corrida para as atividades de prospecção de petróleo offshore, onde os mergulhos de intervenção (bounce dive), eram frequentemente requisitados nas plataformas e navios de perfuração. Em pouco tempo o Brasil atingia a invejável posição de ser a terceira área mundial em concentração de atividades offshore, sendo orgulho nacional.
     
Em 1973, com fortes indícios da existência de jazidas de óleo na Bacia de Campos, cresce a atividade de perfuração offshore no país. Isso resulta no aumento da demanda dos mergulhos profundos. O navio sonda Petrobrás 11, primeira unidade de perfuração offshore da Petrobrás, operada pela empresa Subaquática Engenharia - 100% nacional, instala um sistema de mergulho mais moderno, com sino fechado, dispositivo de lançamento e câmara hiperbárica, onde eram realizados mergulhos de intervenção rápida (bounce dive), envolvendo extrema adversidade no que concerne às condições de trabalho. Na mesma época, outras duas unidades americanas, também subcontratadas pela Petrobrás, executavam serviços de perfuração na Bacia de Campos: o navio sondaCyclone, operado pela empresa francesa Comex e a plataforma semi-submersível Zephir II, a cargo da empresa americana Oceaneering. Portanto, o regime de subcontratação dos serviços mergulho profundo pela Petrobrás na Bacia de Campos remonta ao período da primeiras perfurações. E se, por um lado, essa opção permitiu à Petrobrás contornar um limite imposto por uma tecnologia emergente, por outro, possibilitou que ela repassasse para essas empresas os diversos riscos e possíveis efeitos deletérios que aquela tecnologia introduzia. Com isso, transferia um componente expressivo da gestão dos riscos e não se expunha tanto às inúmeras implicações de natureza trabalhista e acidentária. Desde então, os mergulhadores brasileiros começam a atuar em conjunto com os estrangeiros na montagem de sistemas e na realização de operações, propiciando um fecundo intercâmbio de conhecimento nesta área. Fecundo, porém conflituoso, porque a troca nunca se deu de forma espontânea, pois o que estava em jogo, naquele momento, era o know how de uma tecnologia de ponta da indústria petrolífera. Via de regra as informações eram restringidas, mantidas em sigilo, e a consulta aos manuais mais importantes, só era possível às escondidas.
 
 
Com a descoberta do campo de Garoupa em 1974, intensificam-se ainda mais as atividades de perfuração na Bacia, o que por sua vez, acarreta um novo incremento na demanda pelos serviços de mergulho, tanto raso quanto profundo, pois a exigência por mergulhos mais profundos e demorados cresce com o decorrer do tempo. Novos sistemas são empregados, ainda que estes estivessem aquém do grau de sofisticação tecnológica requerida. São os chamados mergulhos semi-saturados, uma fase transitória, que perdurou até 1977, quando chega ao Brasil, também em regime de subcontratação, afim de auxiliar na manutenção do campo deGaroupa, o navio Flexservice 1, a cargo da empresa Superpesa, equipado para atender aos serviços de lançamento de linhas e mergulhos saturados, marcando o início dos mergulhos de saturação no país. Foi o primeiro D.S.V. a operar em águas brasileiras.

Esta rápida expansão, as maiores profundidades alcançadas e acrescente demanda de mão-de-obra especializada numa tecnologia cada vez mais complexa, foram fatores que aliados à falta de estruturas adequadas (normas de segurança, metodologias de formação, qualificação, especialização e fiscalização eficiente), geraram inúmeros problemas, tais como a rotatividade de emprego, baixos salários e índices elevados de acidentes.

Assim, conscientes e sentindo na própria pele aqueles efeitos, os mergulhadores profissionais que, na sua maioria, desde longa data, exerciam as atividades, tendo participado na maioria das operações submarinas da área offshore, na plataforma continental, empenharam-se numa imensa luta por melhores condições de trabalho e pela organização e controle da atividade.

Na medida em que os processos vão sendo aperfeiçoados, gradativamente vai-se abandonando a técnica do bounce dive, limitada a intervenções pontuais. Profundidades cada vez maiores eram atingidas, possibilitadas pelo rápido avanço das técnicas e equipamentos empregados, fato que dificultava um acúmulo mais consistente por parte dos profissionais envolvidos, e que, por sua vez, agradava-se ao mesmo tempo que a demanda crescente do mercado impulsionava as empresas a contratar novos mergulhadores, sem o devido preparo, para atuar em operações de mergulho de grandes profundidades. Em se tratando de uma atividade de altíssimo risco, índices elevados de acidentes e doenças descompressivas foram registrados.
 

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